Montada com muito realismo e emoção, a encenação da Paixão de Cristo era tradição nos idos dos anos 80 em Afogados da Ingazeira. Pois bem, Toinho Brafuta, muito conhecido na cidade à época, pelas presepadas pintadas quando frangote, havia sido convidado para fazer parte da peça, a qual seria apresentada na sexta-feira da Paixão, porém o personagem interpretado por Toinho só seria avisado minutos antes da realização do primeiro ensaio. Brafuta aceitou ao convite, participou dos ensaios e aguardou o dia do evento com muita ansiedade.
O filho do saudoso Ismael Pedreiro, que é irmão de Juraci Agostinho e de Ninô do Caminhão, atuou como soldado. A platéia gostou da atuação do danado pela forma dinâmica e segura no texto, afinal seu papel seria dar chicotada em Jesus, interpretado por um rapaz chamado Sidney.
Naquele tempo um tiquim de gente tinha aparelho de TV em casa, por isso nascia menino feito a gota. Hoje, se planeja por causa do Bolsa Família que deixa cada um deles com R$150 reais no pé do cipa.
Mais isso é outra história, vamos ao que interessa. No dia da apresentação da Paixão de Cristo, a Praça Arruda Câmara estava tomada de um canto a outro, inclusive com muitas pessoas da zona rural.
Várias cenas foram representadas por atores locais, mas nenhuma chamou tanta atenção como à de Brafuta chicoteando o ator que interpretava Jesus. O responsável pela peça deu a cada um dos soldados um chicote de couro fino que deveria ser usado de forma figurativa.
Mas o Brafuta já cheio das biritas olhou para as costas de Sidney e desceu a chibata pra cima.
O Jesus fazia ar de dor a todo instante, mas o público pensava que era apenas a parte dramática interpretada pelo ator. As lágrimas caiam dos olhos e ele não via a hora daquela cena acabar.
Um rapaz que estava perto do Sidney ficou admirado com a cena e comentou com o amigo: – rapaz esse cara nasceu pra ser ator! Olha para o rosto dele, tá saindo lágrimas de verdade.
Sem estar nem aí pra vida, Brafuta descia o chicote com toda força nas costas do Cristo e gritava em alta voz, sem ter nada a ver com o texto, afinal o infeliz não tinha autorização pra falar absolutamente nada:
– Mardito ruim, Jesus de verdade era bom, mas tu não vale nada e só merece cacete! E tome chicotada.
Nisso, Sidney sem aguentar mais tanta chicotada no lombo falou pelo canto da boca, fí da peste, quando eu sair daqui tu vai me pagar, aguarde!
Quando acabou a apresentação, Brafuta ainda vestido de soldado se abufelou com Sidney na vera, como diz o matuto e foi tabefe com taco de roupa pra todo lado.
Os outros personagens entraram pelo meio, apartaram a briga, e eu estou registrando o causo nessa sexta-feira (07), dizendo que o fato foi real. Visite nosso blog Causos & Contos do Itamar França.
